Pohemia & outras Diarréias Literárias


Quarta-feira , 15 de Março


EM AMOUR



Ainda vai haver tempo bastante
Pra ver nuvens abrirem suas pálpebras
Curtir seu gesto e seu instante
Intacto, como um milagre.

Seu olhar gritando nunca pare –
Tarde sem alarme falso, susto ou s.o.s
Ouço no escuro você e insetos escuto
Cavando seu resto de futuro.

O corredor é longo e sem estrelas
E a gana me nina em seu vácuo.
Quanto mais recuo, mais me aproximo,
Quanto mais erro, mais rimos.
Quem sabe o efeito que isso tem:
Quando, quanto, onde, quem.

Rodrigo Garcia Lopes
NÔMADA
Ed Lamparina

Escrito por Erly Welton às 16h44
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Tarde

É tarde demais
O filho do homem
Incendiou
A lira

É tarde demais
Tânagras sangram
vexando
Em Vênus

É tarde demais
Quatuórviro qual
Pústula
Na vida

É tarde demais
Pouqüidade podre
Modorra
Nos resta

É tarde demais
A mofa ainda goga
O ícone
Do tolo

É tarde demais
Os deuses estiarão
Voltando
Pra casa

É tarde damais
O mar ignorado
agiganta
deserto

é tarde demais
labaredas de sal
derretem
o gelo

é tarde demais
o cão ladra, late
o cãozinho
cainha

é tarde demais
o homem novo
semelhante
ao pai

Escrito por Erly Welton às 10h39
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Terça-feira , 14 de Março


Três


T r ê s !

Festival de Teatro de Curitiba e editoras Medusa e Iluminuras
convidam para o lançamento dos livros

Corpo Sutil, de Ricardo Corona
Criptógrafo Amador, de Marcelo Sandmann
Ode Mundana, de Luiz Felipe Leprevost

e revista Oroboro # 7

As Editoras Medusa e Iluminuras promovem o lançamento conjunto dos livros Corpo sutil (Ed. Iluminuras), de Ricardo Corona, Ode mundana (Ed. Medusa), de Luiz Felipe Leprevost, Criptógrafo amador (Ed. Medusa), de Marcelo Sandmann e o número 7 da revista de poesia e arte Oroboro.

O lançamento, que integra a programação do Festival de Teatro de Curitiba (edição 2006) e acontecerá no Original Café, dia 20 (segunda-feira) de março a partir das 20h(com entrada franca e sem couver artístico), promete ser uma noitada de intensa comunicação poética, com sessão de autógrafos, performances e leituras feitas pelos autores.

Os três livros dos três poetas paranaenses contêm diferentes pesquisas:


Em Corpo sutil, de Ricardo Corona, há uma seleção de poemas "cuja sonoridade singular resulta da imbricação de fragmentos temáticos, palavras e ritmos pertencentes a culturas orais primárias e fragmentos temáticos, palavras e ritmos (e arritmias) contemporâneos". (Antonio Cícero, no texto de apresentação).



Em Ode mundana, de Luiz Felipe Leprevost, "o poeta inscreve sua visão em grande angular da terra devastada. Seu bilhete nervoso deixado na geladeira do mundo". (Marcelo Montenegro, no texto de apresentação).



Em Criptógrafo amador, de Marcelo Sandmann, "já na primeira leitura sentimos que ele escolheu para escrever (e foi escolhido por) uma poesia que se insere na nossa forte tradição coloquial, mas com um sólido contrapeso de formas que não derramam o brilho dos achados, sempre lapidares". (Cristóvão Tezza, no texto de apresentação).



E o número 7 da revista de poesia e arte Oroboro traz uma mostra significativa de poéticas e trabalhos artísticos que vão do humor do cartunista Solda (com dossiê organizado por Key Imaguire Jr.) à pintura de Mazé Mendes e Marcelo Conrado; dos contos da inglesa Anne Cassidy (em tradução de Alice Leal) à prosa de Maria Esther Maciel e Wilson Bueno (destaque da seção "Cobra"); da poesia de Joca Wolff e Diego Vinhas aos diálogos inesperados entre arte e poesia no ensaio de Martinho Júnior sobre o trabalho da artista plástica Regina Silveira; da história em quadrinhos de Antonio Eder ao texto criativo e bem humorado de Celso Borges (seção Orobário). A edição também publica em destaque "A Conjuração Sagrada", de Georges Bataille — primeiro artigo do primeiro número da revista Acéphale (que teve apenas cinco números publicados entre 1936 e 1939) trazido à baila para Oroboro por Fernando Scheibe.



Ricardo Corona (1962) é autor dos livros de poesia Cinemaginário (1999), Corpo sutil (2005) e Tortografia, em parceria com Eliana Borges (2003) – todos pela editora Iluminuras. Em 2001, lançou o CD de poesia Ladrão de fogo (Medusa). Organizou a antologia Outras praias — 13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores — 13 Emerging Brazilian Poets (edição bilíngüe — Ed. Iluminuras, 1998). Traduziu em parceria com Joca Wolff o livro-poema Momento de simetria (Curitiba, Ed. Medusa, 2005), de Arturo Carrera. Integrou as antologias Outras praias (1998), Pindorama — 20 poetas de Brasil (Argentina, 2000), Na virada do século — poesia de invenção no Brasil (2002), Passagens — Antologia de poetas contemporâneos do Paraná (2002) e Cities of Chance: New Poetry from the United States and Brazil (Rattapallax, EUA, 2003), acompanhada de CD de poesia, no qual participa com o poema "Ventos e uma alucinação". Participou também da antologia Os cem menores contos brasileiros do século (org. Marcelino Freire, SP, Ateliê Editorial, 2004) e da mostra "Brasil: Poetry Today", publicada na revista Slope (EUA, 2004). Tem poemas musicados por Vitor Ramil, Ana Lee, Neuza Pinheiro, entre outros. Em 1998, criou a revista de poesia e arte Medusa, e, em 2004, a revista de poesia e arte Oroboro, a qual edita em parceria com Eliana Borges.

Escrito por Erly Welton às 17h26
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Segunda-feira , 13 de Março


Amahã é uma floresta incendiada

É tarde demais, meu amor
amanhã é uma floresta incendiada
uma geleira derretida
uma pedagogia da ignorância
enquanto desfolhada as árvores
onde tínhamos a sombra
em frescas pinceladas de sol
é tarde demais, baby
para a permanente sobriedade
para evitar a ressaca
adiar a noite
e iludur o dia
o futuro é uma planta seca e estéril

Escrito por Erly Welton às 16h46
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Sexta-feira , 10 de Março


Livro 13 - Cupido, Cuspido e Escarrado

de Estrela Ruiz Leminski

Os anos e os dias vão mudando
como as páginas do diário
Ou muda o número de páginas
ou mudam as paixões
Cada ano eu preciso
comprar um dicionário
Só pra entender as minhas anotações

***

Fodam-se as regras
de gramática e redação
Os acadêmicos não são deuses
pra decidir quem é bom ou não

Danem-se os verbos
e suas regras de conjugação
Esses se acham padres
capazes de dar sermão

A literatura é cristo,
um santo que estende a mão
Um poço de sabedoria,
sem limite para o perdão

Pregadores são os que escrevem
relatando o seu tormento
e fingem não ser seu o sofrimento

A poesia é anjo que chega e comunica
que ensina o amor novo
e apaga a chaga antiga

***

Viver em algum lugar
que não seja aqui
que não seja já
Ser jornalista na itália
Uma noite fria em 1852
Casar com Damon Hill
Estar na torcida do Vasco
Nem se esforce,
a vida não é feita só de não
Você já é personagem
de um livro de ficção


Escrito por Erly Welton às 14h51
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Sexta-feira , 24 de Fevereiro


Nem Freud explicava

Recebi do Hiram, por e-mail, o que está circulando pela internet desde janeiro:

Durante o vestibular, a Universidade da Bahia cobrou dos candidatos a interpretação do seguinte trecho de poema de Camões:
"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer".

Uma vestibulanda de 16 anos deu a sua interpretação:

"Ah! Camões, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a internete descobririas
que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!"

Ganhou nota dez.
Foi a primeira vez, ao longo de mais de 500 anos, que alguém desconfiou que o problema de Camões era falta de mulher...

Escrito por Erly Welton às 10h31
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Concurso Literário

10 mil pra literatura. Alguém quer?


Numa iniciativa inédita, o Ministério da Educação criou o concurso literário Literatura para Todos. Com o objetivo de estimular a produção de livros escritos para jovens e adultos recém-alfabetizados, o concurso vai selecionar oito obras de diferentes gêneros literários que serão impressas e distribuídas pelo MEC para alunos das turmas do programa Brasil Alfabetizado.

Os livros deverão ser inéditos e podem se encaixar nas modalidades conto ou novela; crônica; poesia; biografia ou relato de viagem; ensaio ou reportagem; textos da tradição oral; esquetes, scripts, peças teatrais, roteiros de vídeo, cinema, quadrinhos; ou textos utilizando linguagem das Tecnologias de Informação e Comunicação (e-mails, blogs, comunidades virtuais, grupos de discussão, etc.)

A comissão julgadora vai selecionar oito obras, uma por modalidade, para serem editadas e distribuídas para todo o país. Cada livro terá uma tiragem inicial de 300 mil exemplares. Os autores dos livros escolhidos receberão prêmio de R$ 10 mil cada. Os textos deverão considerar as especificidades dos jovens e adultos em processo de alfabetização, contendo uma narrativa atraente a este público.

Os interessados em inscrever suas obras no concurso deverão fazê-lo entre 16 de dezembro de 2005 e 16 de março de 2006. Os textos deverão estar de acordo com os critérios previstos no edital do concurso (disponível para download) e devem ser enviados em três cópias impressas e uma em disquete para a Coordenação-Geral de Alfabetização do Departamento de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação no endereço Esplanada dos Ministérios, Bloco L, sala 710, CEP: 70.047-900, Brasília, DF.
Eventuais dúvidas poderão ser sanadas pelo endereço eletrônico www.concursoliterariosecad@mec.gov.br.

Escrito por Erly Welton às 10h22
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Duas Almas

Eu do avesso

Este meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Nasci na contramão da certeza. Por isso, um dia um amigo disse que havia outra mulher dentro de mim. Eu respondi distraída: “É que você vê meu miolo.”  Ele riu e não disse mais nada. Passaram anos, este amigo atravessou o oceano, mas aquele fio de conversa virou uma meada na minha cabeça, onde tudo cresce. Então descobri em mim uma mulher pacífica e outra tiririca de ruim. Uma angelical, outra que rebola. Uma que se aquieta num canto, outra que dança rumba. Uma capaz de viver de dia, outra que só vive à noite. E pensei: “Mulher é como a lua”. Muda de fase quando a gente está quase se acostumando com ela, fica clarinha, clarinha ou escura de arrepiar.

Por isso, os que se chegam a mim estranham o olho gateado que faisca de repente e quando pensam que vou avançar, canto música de ciranda. Eu sou uma menininha que cresce em três tempos, se me provocarem.  Eu tenho um pé na loucura. Um não, dois. No dia em que um cachorro me mordeu , retribui a gentileza e ele saiu ganindo de dar dó. Mas também sei miar pedindo colo e enrosco na perna do dono, porque meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Vivo uma vidinha espremida entre dois atos, controvertida e sem entregar de bandeja meus humores. Quem gostar de mim que me adivinhe, cansei de ser camarada. Tem gente que acha que camarada é besta. Hoje amarro minha sensibilidade num pavio...bem curto. E quando saio na porrada até os malandros me respeitam. Descobri que tenho corpo fechado. Minha loucura é meu escudo e minha fraqueza. Minha loucura é minha fantasia.


                                             CÉLIA MUSILLI

Escrito por Erly Welton às 10h18
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